Quarta-feira, 5 de Setembro de 2007

Egoísmos

    

     Sentei-me no Café Arcuense deviam ser mais ou menos três horas. Quase ninguém, como é habitual em tardes de sábado e de início de verão. Pedi uma água tónica com três pedras de gelo, costume que me ficou dos calores da Guiné.
     Duas mesas ao lado da minha, outros tantos casais, na casa dos trinta e pouco. Via-se que eram de fora. Pelas roupas, pelo estilo, pela fala. Conversavam eles, animadamente, sobre um concurso qualquer da televisão. Da TVI, sobre a inteligência da Julia Pinheiro ou dos concorrentes. Se calhar de todos. Confesso que não fixei.
     Um pouco mais à frente, dois putos a atirar para os dez, de pé em frente à televisão, embasbacavam-se naquele ecrã gigante, monstruoso mesmo. Futebol, para que os bons hábitos floresçam desde meninos.
     Vejo um deles, t-shirt dos Chicago Bulls, forte e gordo, daqueles de muito hamburguer McDonald´s, muito pedaço de frango do Kentucky Fried Chicken, muita batata frita, coca-cola e ketchup, a pedir um Perna de Pau da Olá. Deve estar a dieta, pensei eu. Em circunstâncias normais teria pedido um Corneto a esparramar-se em chocolate.
     O outro, mais para o magro, mais para a pizza mozarela, pediu-lhe uma trinca.
     — É que nem penses! — exclamou ele, rodando o corpo para o lado contrário. — Isso é que era bom!…
     — Não sejas bera, pá, dá lá!
     — Vê se te calas e não me chateies! Queres o pau? Eu no fim dou-te o pau, está bem? — respondeu o gordo, com mais de meio gelado já comido.
     Apercebi-me, entretanto, que eram filhos dos dois casais. Um de cada.
     Aquele que me pareceu ser o pai do gordo — pela cara, pelo aspecto — observava também a cena, de esguelha. Levantou-se, aproximando-se dos dois.
     — Então o que é que se passa? — perguntou ao mais lingrinhas.
     — É o Rambo, que não me quer dar gelado. Diz que só o pau e no fim.
     — Então, ó Bruno Manuel?! Que história é essa de só quereres dar o pau do gelado ao Frederico António? — perguntou o pai.
     Notei que o miúdo amuava. Fez uma cara que os manuais de comportamento pré-adolescente costumam designar como SSEQTDDTF, ou seja: «sou sempre eu que tenho de dar tudo, fogo!…».
     O pai, via-se pela cara, notava-se pelo porte, de cabeçorra enorme a lembrar-me aqueles seguranças do Grupo Oito, que me pareceu persuasivo pelo menos, flectiu os joelhos, passou-lhe a mão pela cabeça de cabelo curto e disse, condescendente:
     — Vá lá, Bruno Manuel! Não sejas egoísta como a tua mãe, que diabo! Dá-lhe ao menos o papel de fora, pá!
publicado por jdc às 10:57
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