Domingo, 16 de Setembro de 2007

A Primeira Viagem

    

     — Não será melhor levar o miúdo ao doutor para ver o que é que ele tem? — ouvi uma vez a minha mãe a perguntar ao meu pai.
     Ora o que o miúdo tinha — e adivinharam já certamente que o miúdo era eu — é que, volta não volta, vira não vira, dava trambolhões desgraçados, desmaiava quando se excitava demais, e, segundo parecia, tinha uma mola qualquer no cérebro que lhe saltava quando menos se esperava.
     O doutor Duarte, o médico que me tirou cá para fora e a quem o meu pai recorria sempre que eu tinha algum problema que não passava com chás de tília, já farto das sintomatologias bizarras que eu invariavelmente apresentava, e das patologias mais ou menos disparatadas que ele com muita proficiência me diagnosticava, mas que, invariavelmente, o colocavam no estado da maior debilidade emocional, confessou nesse dia ao meu pai enquanto, desanimado, atirava com o estetoscópio para o canto mais longínquo da secretária:
     — Este seu filho, meu amigo, há-de levar-me à loucura! E vai ser, mais cedo do que toda a gente pensa, o principal responsável por eu abandonar definitivamente a medicina, pode crer!
     Vi o meu pai aflito, sem saber o que dizer, a cravar em mim o olhar da sua mais profunda recriminação, enquanto eu, imperturbável, aproveitava esse ínterim, para fazer ginástica nos ferros da balança nova do doutor.
     — Aliás, para lhe ser franco — continuou o médico — eu nem sequer faço a menor ideia do que é que o seu filho tem neste momento! — para logo a seguir rematar, lavando as mãos como Pilatos: — O melhor mesmo é levá-lo a um especialista que há em Coimbra.
E passados nove dias — que nisto o meu pai não era homem de esperar —, lá estava eu, de pardejo às bolas posto, casaco de veludo preto e calças à golfe, a entrar para o combóio em Braga. Estava um frio de rachar.
     Lembro como se fosse hoje, já tínhamos passado Gaia, de ter manifestado ao meu pai o meu mais ardente desejo de puxar uma argola vermelha linda de morrer, que vi dependurada na parede da carruagem. E com tanta veemência o fiz, que o meu pai, longe de me querer contrariar assim directamente, não fosse dar a macacoa ao menino, se viu obrigado a chamar um senhor de farda e boné que, já sem paciência nenhuma perante a minha insistência, com um ar subitamente esgazeado e espumando até pelos cantos da boca, ameaçou furar-me as orelhas com um alicate que trazia na mão, caso eu não recuasse na minha intenção de puxar a tal argola vermelha.
     Não sei quanto tempo depois — ainda demoraria um bom par de anos até eu ter o meu primeiro relógio de pulso — o meu pai, que se entretinha a ler as notícias, dobrou o jornal, levantou-se e, com a eloquência que sempre lhe admirei, virou-se para mim e exclamou:
     — Vamos!
     — Chegámos? — perguntei eu de baixo para cima, tentando imitar-lhe a oratória.
     — Não!
     Recordo-me de ter atravessado na sua frente, balanceando de um lado para o outro, os longos e estreitos corredores de três ou quatro carruagens e, finalmente, ter desembocado numa outra cheia de lustres no tecto, com mesas alinhadinhas umas a seguir às outras e com cadeirões esverdeados. Coisa muito bonita, mesmo.
    — Então isto é que é a Ópera? — perguntei eu ao meu pai, perfeitamente abismado com tanto luxo.
     A resposta tive-a a seguir, logo após ele me ter recomendado para não dizer mais disparates e me sentou junto à janela, naquele cadeirão tão fofo que nem poltrona de arcebispo e vi, bem à minha frente, o aparato mais deslumbrante que jamais me fora dado a apreciar numa mesa de comer: Só para mim, pratos eram três, cada um de seu tamanho e uns assentes em cima dos outros. De cada lado dos pratos, garfos e facas eram mais de cinquenta. Colheres não vi bem, mas de certeza para aí doze. Copos, até para ginja havia. Ah!, e um guardanapo dobradinho e limpo que devia ser para pôr no regaço, como faziam as meninas finas.
     Trouxeram então um livro de capa castanha, que o meu pai leu num instante e com a melhor das atenções. De tão deslumbrado que eu estava com o que me rodeava que só deu para ouvir as últimas palavras dele para o empregado:
     — A mesma coisa para o miúdo!
     O meu pai chamou-lhes, com os olhos cintilantes, do lombo. Aos bifes, claro. Vieram numa travessa cheia de floreados, eram da altura de três dedos e reluzentes como trutas. No meu prato, a rodearem o bife, puseram-me três ou quatro batatas fritas. Uma miséria de poucas. De tão poucas que me levou, de imediato, a deitar um tal olhar ao empregado que, não fosse ele estar a segurar a travessa, cairia redondo no chão, de certeza fulminado.
     — Se o menino quiser, eu depois trago mais — titubeou ele, ao ver-me nos olhos a vontade determinada de o comer vivo. — É só pedir!
     Pôs-me a seguir dentro do prato — tudo com uns salamaleques danados —, uma mixórdia verde qualquer, com um ovo estrelado em cima.
     — Esparregado! — esclareceu o meu pai, quando me viu, com ar interrogativo, apontar para aquela mistela e a fazer uma cara típica de quem tinha acabado de tomar óleo de fígado de bacalhau.
     — Experimenta, que vais ver que é bom! — aconselhou ele, estimulando-me.
     E estava eu, deveras deliciado, dando razão ao meu pai, quando, de repente, me vejo a seguir o trajecto de uma mosca enorme que, vinda de lá do fundo da carruagem e por certo desnorteada com o aroma tão embriagante do bife, veio estatelar-se, em vôo suicida, precisamente contra o meu ovo estrelado.
     Ainda tentei, com o polegar e o indicador — como estava farto de o fazer — pegar-lhe por uma asa, preservando assim, não a vida da mosca, que nunca tive vocação para nadador-salvador, mas a integridade do ovo que me estava a saber tão bem.
     — Espera! — disse o meu pai, segurando-me no braço e interrompendo, dessa forma tão abrupta, a operação de resgate. — Vamos pedir outro!
     Detestei que me fizesse aquilo, como detestava, aliás, que alguém me contrariasse. Ao levantar a mão para chamar o empregado, o meu pai teve que me largar o braço. Este gesto foi providencial, tanto mais que me permitiu agarrar rapidamente a mosca com os dedos e metê-la, mais rapidamente ainda, debaixo do guardanapo. E tudo isto para que ninguém de entre a ilustre clientela que recheava o restaurante, viesse a suspeitar da clara javardice que eu sabia estar a levar a cabo em tão luxuoso ambiente.
     Limitei-me depois, como se nada tivesse acontecido, a comer o ovo de uma só assentada, com uma colher das de sopa.
     — Então tu vais-me fazer uma coisa dessas, palerma? — interpelou o meu pai, verde de horrorizado, depois de ter constatado o desaparecimento do ovo. — Comer essa porcaria com a mosca?… Tu és maluco, porventura?
     Depois de ter sentido o ovo a transpor-me o canal do esófago, antes que me dissesse mais qualquer coisa e naquele tipo de reacção de puro deleite que me era característico — e nunca por nunca da mais abjecta perversão como era sempre injustamente acusado —, virei-me bem para ele, estalei a língua contra o céu-da-boca, fechei os olhos e mandei um «Aaaaaahhhhh!» cá para fora, como se manda quando se bebe uma laranjada e as bolhinhas de gás começam a estalar todas na boca, transmitindo-nos aquela sensação porreira de se gostar e pedir mais.
     Notei-lhe, de imediato, o olhar frio da reprovação, o ríctus do mais inconsolável desgosto na face. Mas para que não continuasse naquele terrível desconforto de imaginar-se como responsável pela vinda a este mundo não de um filho querido e sossegado, como acontece a qualquer pai normal, mas de um monstro abominável e execrando, levantei o guardanapo ao de leve com a mão esquerda e, com a direita, apontei-lhe para a mosca que, de patas para o ar, era já definitivamente cadáver.
     Para completar o quadro, pisquei-lhe um olho. Vi-o suspirar de alívio, recostar-se lentamente na cadeira, inclinando a cabeça para trás. Deu para perceber nos seus lábios, como que numa inesperada cumplicidade, o mesmo sorriso gaiato que eu sabia ter herdado dele.

publicado por jdc às 12:31
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