Segunda-feira, 6 de Agosto de 2007

O fascínio que África nos provoca

 

   Aconteceu há uns meses: T., uma amiga minha documentalista na Assembleia da República – e decidi chamar-lhe T., na tentativa de preservar um pouco a sua privacidade – foi convidada para integrar uma missão da União Interparlamentar Europeia destinada a reestruturar e agilizar o funcionamento da Assembleia Nacional de uma antiga colónia espanhola da costa ocidental africana.
   Manifestou-me ao telefone, de forma quase infantil, a sua excitação perante a encantadora perspectiva de viajar para um continente com tanta aura de exotismo, de mistério até, materializado nas suas selvas impenetráveis, nos seus animais selvagens, nas suas civilizações perdidas, enfim, acrescentava-me ela com saborosa ironia, poderia ser até uma altura soberana para tentar dar continuidade a um dos desígnios do nosso D. Afonso V, levando finalmente a cabo a descoberta do reino de Prestes João.
   Era fim de tarde. Estávamos junto ao rio, ao fresco, sentados na esplanada dum daqueles bares simpáticos do cais de Alcântara. T. combinara este encontro comigo porque queria que lhe contasse, de viva voz, tudo o que sabia sobre África, daquele continente que só de imaginar-se nele – dizia-me ela perpassada pela efervescência –, lhe fazia arrepiar os pelos dos braços e cuja realidade ela estava farta de saber que eu conhecia com alguma proximidade.
   Não estava obviamente nos meus planos arrefecer-lhe o entusiasmo, falando-lhe das desgraças em que muitas das nações africanas, não poucas vezes, se viam submergidas. Nada lhe disse sobre os massacres registados às mãos de déspotas sanguinários, das barbáries cometidas em estúpidas guerras civis originadas pelo controlo de zonas diamantíferas, do genocídio que ainda hoje se vive no Darfur, a oeste do Sudão, perante a indiferença cúmplice da comunidade internacional.
   Reconheço agora, passado este tempo todo, ter havido alguma inabilidade da minha parte ao orientar a conversa da forma como acabei por fazê-lo. Numa atitude de que me arrependo com alguma dose de amargura, preferi dissertar sobre saúde e seus cuidados conexos, para que partisse prevenida. Achei por bem transmitir-lhe tudo aquilo que sabia sobre febre tifóide, malária, cólera, febre hemorrágica, dengue…
   «E sexo, não se pode?», perguntou-me ela a determinada altura, interrompendo-me e pousando a sua mão no meu braço, indiferente ao ruído de um comboio que circulava ali por cima na ponte, e ao mesmo tempo que o olhar, absorto, se lhe perdia na outra margem do rio.
   Alguma coisa cá dentro me instruía para que ignorasse a pergunta que acabara de ouvir. Continuei tranquilamente a discorrer sobre os males do sida, da febre amarela, do vírus de Marburg, da elefantíase, da leishmaniose e sobre um micróbio esquisito que se entranha por debaixo das unhas e de que não me recordo agora o nome.
   E esta minha mania de me entusiasmar quando falo sobre temas que domino com alguma razoabilidade, levou-me a rematar com esta tirada realmente pouco afortunada: «E depois há ainda o problema da pororoca!».
   Vi subitamente a minha amiga empalidecer, levantar-se tremelicando e comprimir o peito com a mão; fazer, como se vê muito nos desenhos animados, um esgar de aflição apoiando-se ao mesmo tempo no tampo da mesa; contorcer as pernas, virar-me as costas, e desandar, enfunada, a dar aos ombros.
   O meu pasmo e a minha boca escancarada pelo inusitado da situação, não foram suficientes, contudo, para me impedir de ouvir as suas derradeiras palavras, enquanto se afastava desabrida:
    — Ah não, pelo amor de Deus, pororoca nunca!

publicado por jdc às 23:56
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