Quinta-feira, 13 de Setembro de 2007

Os Frios Invernos do Norte

    
 
     As manhãs de inverno no norte, diz quem sabe, costumam ser de quebrar os ossos. Sei, porque sou de lá, que quando não chove e o vento sopra, gélido, dos interiores da Galiza, é sempre um valha-nos Nossa Senhora e um Deus nos acuda.
     As pessoas, manhã cedo, sentam-se nos cafés, tiritando encolhidas, lançam os ombros para a frente e encobrem as mãos entre as pernas, tentando com o calor do seu próprio corpo suavizar o frio que lhes entorpece os músculos, lhes marca as faces, lhes corta o coração e a alma.
     São sete e meia da manhã, de um dia cinzento, de um Novembro de que já perdi o rasto. Sento-me a um canto mais abrigado do Arcuense, a dois passos do balcão.
     Àquela hora, por ser dia de feira, o café estava já cheio de gente da aldeia que se acotovelava, na ânsia de ser servida, de engolir qualquer coisa que lhes animasse as entranhas.
     Passa por mim, dirigindo-se para o balcão, uma mulher vestida de preto. Dobrara já os sessenta. As mesmas roupas e o mesmo preto que costumavam cobrir as mulheres dos nossos montes. Devia ser conhecida, pois o empregado cavaqueava com ela e começara a tratá-la pelo nome. Vi servir-lhe, num daqueles copos pequenos, bojudos, um líquido transparente, que adivinhei ser aguardente.
     Olhou para mim com um sorriso no qual me tornei deliberadamente cúmplice, ao mesmo tempo que pegava no copo e o levava à boca. Emborcou tudo de um só trago. Vi o seu corpo estremecer. Pensei que iria estatelar-se, redonda, ali no café, naquele chão frio de quadrados de mármore, mas enganei-me. Cortou-me a respiração vê-la lançar um «Aaarrghhh!» lancinante e fazer um esgar de pavoroso sofrimento, como se subitamente se tivesse precipitado nas mais crepitantes labaredas do inferno. Pelo canto do olho, com a cabeça levemente inclinada, mirou-me novamente, dizendo:
     — Não sei como é que os homens gostam disto!
     Levantou o avental, e duma pequena bolsa de cabedal escuro que tinha atada à cintura, retirou uma moeda qualquer. Pousou-a em cima do balcão e ordenou ao empregado, que mal tivera tempo para arrumar a garrafa:
     — Deita outro!
     Ah!, como eram frios aqueles invernos nos Arcos.
publicado por jdc às 22:46
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