Sábado, 25 de Agosto de 2007

O Tufo


        Já há uns tempos que me sentia a perder a agilidade, lento de movimentos, pesado mesmo. Quando descobri que era do cabelo, espreitei a minha agenda e marquei a ida ao barbeiro para sábado 25. Hoje.
Pedi para ser o senhor Armando, mas estava para os Algarves. Saiu-me uma moldava.
No princípio achei-lhe a cara meio esquisita, mas quando me perguntou «como queria», pelo sotaque associei-lhe a cara à pronúncia e vi que era de Leste.
— Curto — disse-lhe eu. — A espetar!
— Como? — Perguntou, franzindo a testa.
— Não ligue! — Atirei-lhe, como que a desculpar-me pela precisão esquisita. — Curto, só!
— Máquina ou tesoura?
Agradava-me a objectividade do seu laconismo.
— Máquina!
— Pente 3 ou 4?
A pergunta, profissional, objectiva, devia tê-la sempre engatilhada para testar o grau de exigência dos clientes. Fiz de conta que não ouvi e ela, que não se desmanchou, fez também de conta que lhe tinha respondido, pois apressou-se a encaixar na máquina o pente de dentes mais largos. Seria o 4? Perguntei-lhe. É sempre bom saberem-se estas coisas mais elementares para em próximas oportunidades não sermos apanhados em contra-pé. Confirmou que sim.
Desbastou o que quis com a máquina, imaginando-a pelos gestos, pelo desembaraço dos dedos a ceifar searas férteis. Cortou atrás, dos lados, por cima. A sua mobilidade, a sua presteza, a sua desenvoltura, agora com a tesoura, transmitiam-me confiança.
A tensão inicial que nos retesa o corpo, tão natural quando entregamos a sorte da nossa cabeça nas mãos de um estranho, foi-se esvaindo aos poucos. Relaxei o pescoço, as costas, os braços. A rigidez das nádegas deu lugar a uma flacidez saborosa que se estendeu a todo o corpo.
E nesta moleza, fechei despreocupado os olhos e entreguei-me nas suas mãos.
Criesce prá friente!
Abri os olhos. Pelo espelho vi-a a apontar para um tufo de cabelos que, desintegrados do conjunto, pareciam ter sido ali espetados, do lado esquerdo, mesmo à entrada do couro cabeludo, e que, apesar dos seus esforços, não conseguia perfilar.
— É da posição em que durmo; sempre para o lado esquerdo. — Tranquilizei-a.
Tornei a fechar os olhos, desta vez preocupado: não devia ter entrado neste tipo de inconfidências.  É defeito meu, mesmo. Tinha lá alguma coisa que lhe revelar a posição em que durmo? E se ela dormisse para o mesmo lado? Olhei novamente para o espelho tentando confirmar se ela teria um tufo de cabelo espetado do lado esquerdo. Tinha. Mais pequeno que o meu, mas tinha.
Ela reparou que estava a observá-la e sorriu.
— Eu também. Sempre pró lado izequierdo. — Revelou.
Pôs-me uma toalha à volta do pescoço, rodou a cadeira e começou a lavar-me a cabeça.
Estiquei um pouco mais as pernas, reclinei ainda mais a cabeça para trás e deixei-me estar ali, naquela indolência boa, enquanto que os seus dedos envolviam o champô na água tépida que escorria com abundância por entre os meus cabelos.
Notei uma batida mais rápida no peito, dei um suspiro mais fundo e dos meus lábios senti desprender-se um sorriso. Ah! como era agradável a sensação de se encontrar alguém com o qual se tinha alguma coisa em comum. Quanto mais não fosse, essa coisa tão bonita de ambos dormirmos virados para o lado esquerdo da cama.
publicado por jdc às 22:51
link do post | comentar | favorito

No Fio do Horizonte

  

   Eduardo Prado Coelho morreu hoje em Lisboa.
Homem de cultura, professor universitário, escritor, desempenhou ao longo da sua vida diversos cargos públicos, o último dos quais como membro do Conselho Directivo do Centro Cultural de Belém.
   Da sua bibliografia destacam-se «Tudo o que não escrevi», «Diálogos sobre a fé» e «Nacional e Transmissível».
  Apoiante de Manuel Alegre na última campanha presidencial, colaborava, desde o seu aparecimento, com o jornal «Público», onde mantinha a coluna «O Fio do Horizonte», cuja última crónica «Ai, simplex!» irá ser publicada segunda-feira, dia 27.
   Poderá soar a circunstancial dizer que a nossa Cultura fica mais pobre, mas essa é a verdade. Triste, dura e incontornável.
   Tinha 63 anos.
publicado por jdc às 12:51
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
Sexta-feira, 24 de Agosto de 2007

Sei não, dotô!...

       

  

   O pagamento por parte da empresa de construção Somague, já há seis anos, de uma factura de 230 mil euros, por serviços prestados pela Novo Design ao PSD, vem levantar, muito justamente, uma questão tão simples como esta: a que propósito e a troco de quê?
   Uma coisa é uma empresa fazer um donativo ao clube da terra ou aos bombeiros voluntários, por quem o presidente do conselho de administração ou os seus sócios-gerentes têm natural simpatia e compreensão pelas crónicas dificuldades em que vivem atulhados, outra, bem diferente, é o que se oferece a um partido político, entidade cujo objectivo último é, naturalmente, o exercício do poder.
   E o busílis da questão não é tanto saber porque é que se oferece, mas muito mais o que é que se ganha com isso, sim, porque ninguém é ingénuo ao ponto de, nesta relação tantas vezes promíscua de capital/poder e no financiamento partidário, pensar que se trata do mais autêntico altruísmo.
   Marques Mendes, numa estranha reacção de incredulidade, ainda acrescentou perante os jornalistas, que a haver responsabilidades (presume-se que do seu partido) elas certamente viriam a ser apuradas.
   Como diria o meu amigo Antônio Querido Fracasso, um proficiente engraxador baiano, homem de boa prosa que conheci em Salvador e a quem as voltas da vida fizeram céptico, «sei não, dotô, sei não!»
   Lembram-se das buscas que há cerca de dois anos a Polícia Judiciária fez, com grande aparato, à Câmara Municipal da Amadora e à casa do seu presidente Joaquim Raposo? De que se suspeitava? Financiamento partidário, ao que foi divulgado. E em que é que deu?

publicado por jdc às 16:43
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito

Não é a Ópera...

publicado por jdc às 14:33
link do post | comentar | favorito

«Cinquecento» - o velho e o novo

 

   Tive mais o privilégio que a sorte, de ter os três carros que foram ícones para a minha geração: o Mini, o VW carocha e o Fiat 500.
   Os dois primeiros já se viram renascidos, através do lançamento de novas versões. O terceiro, tão popular em Itália como fora dela nos finais da década de 50 e por toda a de 60, vai ver agora, redesenhada pela mão do estilista Frank Stephenson (criador do novo Mini), a sua versão para este milénio. Desta vez fabricado em Tychy, na Polónia.
   Espero-a, com alguma ansiedade.


                                


   O texto que se segue, da autoria de Fernando Calmon, foi retirado da edição de 13 de Julho do MSN Automóvel.

   O renascimento do 500 (Cinquecento, em italiano) não foi uma operação de nostalgia, faz questão de sublinhar a Fiat. A intenção era fugir da solução fácil de projectar um carro apenas parecido com o simpático 500 (conhecido como Topolino, ratinho em português) e sim reproduzir os conceitos de um momento histórico de recuperação económica pós-guerra da Itália, mas agora com forte ênfase nos confortos modernos que os italianos não podiam usufruir nos anos 1950.

   Na realidade, segue uma onda de modelos que reeditaram sucessos de venda do passado. O New Beetle abriu alas em 1998, baseado no carocha que de 1938 a 2003 vendeu cerca de 22 milhões de unidades, um recorde entre os automóveis fiéis ao desenho original. O Mini inglês chegou a 5,5 milhões entre 1959 e 2000. O 500, que tinha 56 cm a menos de entre-eixos em relação ao carocha, alcançou quase 4 milhões em 20 anos (1957-77). Sem contar o Chrysler PT Cruiser ou os Chevrolets HHR e SSR, livremente inspirados no passado.

   A exemplo do New Beetle, o novo 500 precisou abandonar o motor traseiro refrigerado a ar. Ambos tiveram que se basear em arquitecturas existentes, Golf e Panda, respectivamente. A curiosidade foi que um carro-conceito, o Trepiùno, apresentado no Salão de Genebra de 2004, deu origem ao projecto.

   Em 2005 ele evoluiu para a reedição do 500, desenhado pelo estilista marroquino Frank Stephenson (criador do novo Mini e ex-Ferrari/Maserati, BMW e Ford). Levou apenas 19 meses, do início até o lançamento, para aproveitar os elementos estruturais disponíveis. Também servirá de base ao novo Ford Ka europeu dentro de quatro meses, ambos fabricados em Tychy, Polónia.

   Várias primazias

   

   A filosofia do projecto tinha de estar de acordo com o momento de recuperação financeira e de imagem da Fiat. Daí a festa milionária em Turim no dia 4 de julho, exactamente 50 anos depois da apresentação do modelo inspirador. A fábrica fez questão de introduzir equipamentos inéditos nessa faixa de subcompactos, antes reservados aos carros topos de gama. Várias sugestões vieram de internautas por meio de um site especialmente criado para este fim.

   A Fiat afirma que, pela primeira vez, toda a gama de motores — 1,2 l/69 cv, 1,4 l/100 cv (ambos Fire) e o diesel 1,3 l/75 cv (Multijet) — já vai atender à nova fase de emissões Euro 5 para 2009. Também destaca o projecto voltado para atingir a nota mais alta no programa europeu de testes de impacto (Euro Ncap), particularmente difícil num carro de apenas 3,55 m de comprimento (13 cm menos que o actual Ka).

   Os sete airbags de série (um para os joelhos do motorista) impressionam, mas curiosamente os dois apoios de cabeça traseiros — capacidade total é quatro passageiros — não são de série em todas as quatro versões de acabamento: Naked, Pop, Sport e Lounge.

 

   A gama de acessórios passa de 100. Há 12 cores externas, inclusive 6 que reproduzem as originais, 15 tipos de revestimentos (incluindo os refinados tipos de couro Cordura e Frau), 6 desenhos diferentes de rodas de liga (aro 14, e 15 pol), 19 adesivos de personalização, 3 fragrâncias no difusor de perfume, 9 coberturas para chaveiro e até porta-snowboard para a tampa do porta-bagagens.

   Sem contar cobertura cromada para as carcaças dos espelhos retrovisores, tecto solar de vidro fixo ou móvel, cabide adaptável aos apoios de cabeça dianteiros e até capa de protecção para a carroceria com a foto do automóvel original. No total, há exactamente 549.936 combinações possíveis de montagem.

   A electrónica de bordo é avançada: Bluetooth, reconhecimento de voz, entradas USB e Ipod, tocador de MP3, navegador embutido (e também portátil de última geração criado pela Marelli para se integrar ao 500) e sofisticado sistema de som Hi-Fi. O ESP, programa de correcção de trajectória, é opcional, mas inclui antitravamento de rodas nas reduções de mudança de direcção e assistência para arrancar em aclives e declives.

   Ao volante

   

   Vendo o Cinquecento de perto, é fácil constatar que a mudança para tracção dianteira e a necessidade de aumentar a altura e a distância entre eixos não impediram que o desenho fosse actualizado sem se distanciar tanto do projecto dos anos 1950. Chamam a atenção o capô bem curto, as rodas nas extremidades da carroçaria, os faróis e lanternas — tudo respeitando o original, inclusive o seu aspecto “sorridente”. Linha de cintura levemente ascendente e lanternas traseiras bem dimensionadas são concessões à modernidade.

   O coeficiente aerodinâmico (Cx, 0,325) e o porta-malas de apenas 185 litros de volume são números que não se destacam pelas limitações que a silhueta do antigo 500 impõe. Da mesma maneira o formato da terceira coluna e a curvatura do tecto foram adaptados para os dias actuais, na tentativa de melhorar a habitabilidade no banco traseiro. Quatro pessoas de até 1,70 m, no entanto, acomodam-se bem. Acima disso, quem viaja atrás começa a sentir falta de espaço para a cabeça e pernas.

   Por dentro o destaque é o painel pintado na cor da carroçaria. O volante, relativamente grande, também teve de respeitar os vínculos com o passado, porém ajustável em altura. Há alguns porta-objetos, mas o porta-luvas (sem tampa) é minúsculo. Como opção, pode-se rebater o assento do banco do acompanhante e ganhar espaço extra. Todos os comandos ficam à mão, em especial a alavanca de velocidades (5 ou 6, dependendo da versão). Em breve, estará disponível com caixa automática, chamada de Dualogic.

   A avaliação pelo centro de Turim e estradas vizinhas estendeu-se por uma hora para cada uma das versões de 1,2 l e 1,4 l a gasolina. A distância entre eixos de apenas 2,30 m e bitolas um pouco mais largas que as do Panda tornaram o Cinquecento bastante ágil em manobras e com comportamento óptimo em curvas sequenciais.

   A estabilidade direccional, também muito boa, é ajudada por pneus 185/55-15 que equipam o carro com o motor mais potente, de 100 cv. Este pode acelerar de 0 a 100 km/h em 10,5 s (12,9 s, motor de 69 cv), segundo o fabricante.

   O motor de menor potência, que deve responder por mais de 50% das vendas, beneficia-se de um peso de apenas 865 kg, mas na prática passa dos 900 kg porque há tendência de os compradores procurarem acessórios dentro de uma gama tão vasta.

   Assim superequipado como o automóvel avaliado, a versão de entrada do 500 perde desempenho nas retomadas e tem pouco brilho para sair da imobilidade. A versão turbodiesel já não sofre desse mal pelos seus quase 15 kgm de torque, mas certamente perde em dirigibilidade porque tem 120 kg a mais, concentrados sobre o eixo dianteiro num carro de tracção dianteira.

   O banco, um pouco duro, mas sem incomodar, como deve ser, destaca-se por pronunciados apoios laterais no encosto e no assento. Pessoas de corpo volumoso podem sentir algum incómodo. A direcção dispõe de assistência eléctrica. As suspensões possuem calibragem bastante firme, em particular na versão de 100 cv, o que deve trazer certo desconforto quando o piso não é tão liso. Há um apoio para o pé esquerdo do motorista de dimensões elogiáveis. Os travões, bem dimensionados, são a disco nas quatro rodas apenas na versão mais potente.

   Um pormenor meio estranho: ponteiros do velocímetro e do conta-rotações, no quadro de instrumentos, são concêntricos e com escalas próprias, levando a um cruzamento que às vezes confunde o motorista.
publicado por jdc às 10:51
link do post | comentar | favorito
Quinta-feira, 23 de Agosto de 2007

A falta de diálogo

 

                 

 

   Casados há oito anos, Maria Luísa e António José, tinham um filho, o Bruno Miguel — esperto o puto — que claramente evidenciava qualidades incomuns para a tão tenra idade dos seis. Havia quem dissesse ser um sobredotado.
   — Paiê!... — chamava  o Bruno Miguel, sentado à mesa, durante o jantar, ao mesmo tempo que se assistia ao Jornal Nacional da TVI.
   — Sim filho?! — dizia o pai, enquanto serrava o hamburguer e olhava de canto para a televisão.
   — Quero ser otolinolalingologista!
   — Queres o quê, filho?
   — Ser otolinolalingologista! — e ria-se, o puto.
   — Mas que nome tão feio, Bruno Miguel! Nem penses nisso!  — dizia a mãe, enfiando-lhe na boca uma monumental garfada de um misto de arroz espapaçado, gema de ovo estrelado e de um pedaço de douradinho do capitão Iglo. —  Vá lá, come e cala-te, que é para a comida não arrefecer.
   — Mache puquê? — perguntava o miúdo, de boca cheia. — puqué que num pocho chê otolinolalingoloxista?
   — Claro que podes, filho! — respondia o pai, mais interessado em ver a notícia sobre o homem que tinha dado um tiro na mulher, esfaqueado o baço à sogra, posto veneno de ratos na comida do sobrinho mais velho e se enforcado de seguida, do que no futuro do seu próprio filho. — Hás-de ser, mas agora não, que estamos a jantar. E além disso não se fala de boca cheia, que é feio. Olha ali a senhora na televisão, com aquela boca tão grande, maior que as nossas três todas juntas, já viste?
   — Mas também não é para já que eu quero ser otolinolalingologista — dizia ele insistente. — É só quando for grande!
   — E hás-de ser, filho, e hás-de ser! Mas agora come!
   — Mas como porquê?! — perguntava o puto, perto da indignação. — Na televisão é que têm razão quando dizem que não há diálogo entre os pais e os filhos...
   — Claro que há diálogo, filho. Então não há diálogo?!— respondia o pai, olhando surpreendido para a mãe, por tão esquisita questão levantada a hora tão imprópria e, ainda por cima, por um filho que os educadores lá da creche teimavam em afirmar ser sobredotado. Quando se via perfeitamente que era um miúdo normal. Chato como todas as crianças.
   — Então como é que há diálogo? — insistia o Bruno Miguel. — Quando eu falo, enchem-me a boca de comida. Se eu falo, mandam-me logo calar e dizem-me que não se fala com a boca cheia, que é feio!...
   — Maria Luísa...
   — Diz amor...
   — Estou farto de te dizer para não deixares o Bruno Miguel ver os programas da 2. Anda intelectual de mais para o meu gosto, este miúdo!
 
publicado por jdc às 10:39
link do post | comentar | ver comentários (4) | favorito
Quarta-feira, 22 de Agosto de 2007

É plágio, Luís!...

  

  
   Em comunicado, a propósito da acusação lançada pelo jornal «Público», de que Luís Filipe Menezes, no seu blogue
luisfilipemenezes.blogspot.com, estaria a utilizar como seus textos copiados da Internet, o presidente da Câmara de Gaia e candidato à chefia do seu partido, considera isso como «matéria ridícula e irrelevante».
   Vistas bem as coisas até é natural que Menezes pense assim, pois, dando como certa a integridade do seu carácter, não acredito que tivesse sido de sua iniciativa a publicação num blogue pessoal de textos alheios, sem lhes atribuir a respectiva paternidade.
A questão poderá não ter a gravidade nem o significado que o jornal lhe quererá atribuir, tanto mais que se sabe agora que no blogue trabalham diversos assessores (desvirtuando a sua característica de veículo intrinsecamente pessoal, como Menezes pretende fazer passar), mas está longe de ser matéria irrelevante e ridícula. 
   Com efeito há plágio, sim senhor. Publicam-se trabalhos tirados da Internet, não se revelam as fontes ou autores e, o que é mais grave, mudam-se algumas palavras em textos, numa clara tentativa de lhes escamotear a origem.
   Reitero aquilo que já afirmei: Não acredito que LFM o tenha feito. O que ele tem é a responsabilidade por um produto que assina. E não vale a pena aos seus assessores virem atirar com areia aos olhos de quem segue estes assuntos, dizendo que se tratou de um «lapso», pois é por «lapsos» como estes, «ridículos e irrelevantes», que se dá a queda de muito boa gente.

publicado por jdc às 16:30
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito

Bolero do Coronel Sensível...

   
    caricatura de Miguel Soares
  
  
   Para além da qualidade da sua obra, que o torna indiscutivelmente num dos maiores escritores portugueses contemporâneos e num dos grandes a nível mundial, retenho de António Lobo Antunes, a sua irascibilidade, o seu ar de permanente má disposição, como se estivesse de mal com o mundo por querer abraçar toda a gente e não conseguir fazê-lo a ninguém, e desta coisa deliciosa que se dá pelo nome de «Bolero do Coronel Sensível que fez amor em Monsanto», do qual só há relativamente pouco tempo tomei conhecimento, estando longe de imaginar, com esta lacuna minha, das incursões de Lobo Antunes por estes tão reconfortantes territórios.
 
   Bolero do Coronel Sensível que fez amor em Monsanto
  
   Eu que me comovo
   Por tudo e por nada
   Deixei-te parada
   Na berma da estrada
   Usei o teu corpo
   Paguei o teu preço
   Esqueci o teu nome
   Limpei-me com o lenço
   Olhei-te a cintura
   De pé no alcatrão
   Levantei-te as saias
   Deitei-te no banco
   Num bosque de faias
   De mala na mão
   Nem sequer falaste
   Nem sequer beijaste
   Nem sequer gemeste,
   Mordeste, abraçaste
   Quinhentos escudos
   Foi o que disseste
   Tinhas quinze anos
   Dezasseis, dezassete
   Cheiravas a mato
   À sopa dos pobres
   A infância sem quarto
   A suor, a chiclete
   Saíste do carro
   Alisando a blusa
   Espiei da janela
   Rosto de aguarela
   Coxa em semifusa
   Soltei o travão
   Voltei para casa
   De chaves na mão
   Sobrancelha em asa
   Disse: fiz serão
   Ao filho e à mulher
   Repeti a fruta
   Acabei a ceia
   Larguei o talher
   Estendi-me na cama
   De ouvido à escuta
   E perna cruzada
   Que de olhos em chama
   Só tinha na ideia
   Teu corpo parado
   Na berma da estrada
   Eu que me comovo
   Por tudo e por nada
  
    (Lobo Antunes)
 
publicado por jdc às 12:02
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
Terça-feira, 21 de Agosto de 2007

Diálogos à solta (2)

        caricatura de Court Jones

     

 

— Vinha buscar uns óculos que deixei aqui há dois dias para arranjar.
— E em que nome é que ficaram?
— São do meu marido.
— Sim, mas qual é o nome?
— O meu? Marília Alves Carneiro.
— Não, minha senhora! O nome do seu marido!
— E para que é que a senhora quer saber o nome do meu marido?
— Para poder entregar os óculos à senhora.
— Ora essa! Então agora uma pessoa para poder levantar uns óculos tem de dizer o nome do marido? E se for divorciada? Ou mesmo viúva?...
— Não é isso, minha senhora...
— ...Sim, porque eu, que já sou casada há vinte e nove anos, e sempre fiz questão disso, casei-me com separação de bens, só para que não dissessem que lá por o meu marido ser engenheiro da construção civil, estava a dar o golpe do baú, como se diz agora nas telenovelas brasileiras e nas da TVI, que a RTP anda uma autêntica porcaria, só com debates, só com debates. O meu mais velho, o Jorge Humberto, que está agora a tirar o mestrado em psicologia clínica até comentou isso com a mais nova, a Alcina Maria, antes dela se ir embora para as Canárias fazer o trabalho de fim de curso em antropologia, que ela até queria, tadinha, ir para São Tomé e Príncipe, mas eu desaconselhei-a e até lhe disse-lhe: Ai filha, olha as picadelas dos mosquitos, olha a febre hemorrágica, o dengue, a malária, as bexigas doidas, olha os pretos de lá que são tão escuros, e ela lá se convenceu e foi para as Canárias que sempre é mais perto, apesar de serem todos espanhóis, o que também é um grande aborrecimento como deve imaginar...
— Minha senhora, como certamente já reparou, está aqui uma imensidão de pessoas para ser atendida. Então, recapitulemos se faz favor, para ver se nos despachamos: A senhora entregou cá um par de óculos para consertar, certo?
— É isso mesmo!
— E deixou-os ficar em nome de...
— Do meu marido!
— Ainda bem que a senhora se lembra. E o seu marido chama-se?...
— Mau, a senhora insiste! Para que é que quer saber o nome do meu marido? Só se for para lhe telefonar! Tenho visto tanta coisa, que até já nem estranho nada. Sim, porque ele, apesar de ter já cinquenta e dois anos e não parecer, é uma estampa que nem lhe digo...
— Eu imagino...
— Olhe, então para nos despacharmos, que eu também estou com pressa, são uns óculos de ver ao perto, com aros fininhos de metal preto, como usa agora aquele actor americano... ai ajude-me lá, como é que  se chama o sujeito?... que fazia de médico das urgências naquela série americana e até dá uns ares com o António Banderas, que eu até no outro dia, quando estávamos a ver televisão, comentei com o meu marido, na brincadeira: Ai Manuel Flórido, se não fosse casada contigo e se o Banderas não fosse espanhol, até fazia uma asnei...
— Desculpe-me, disse Flórido?
— Exactamente. É um nome muito bonito, não é? Pois é... eu também acho, e até para lhe ser franca...
— Não precisa de dizer mais nada, minha senhora, não se canse. Estão aqui os óculos do seu marido.
— Está a ver, como eu até tinha razão!... Como vê, não precisou de saber o nome dele para me entregar os óculos. Se não fossem as burocracias, este país até que andava para a frente. Se as pessoas se deixassem de palavreado e trabalhassem, mas não, ainda anteontem, estava eu a conversar com a minha vizinha do terceiro esquerdo, a dona Francelina, a falarmos da vida, não é verdade... ... ...
 
publicado por jdc às 10:10
link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 20 de Agosto de 2007

Hamid Bahrami

   cartoon de Hamid Bahrami

  


   Sinto-o como meu, o dever que cabe a todos de intercambiar conhecimentos, de divulgar o que de mais prolífero tem a mente humana, que é a sua capacidade criativa e que pode manifestar-se pelos mais diferentes meios, partindo sempre do pressuposto que, apesar de haver culturas dominantes – por que isso sub-repticiamente nos é imposto em nome de valores nem sempre os mais certos, nem sempre os mais justos – todas as formas de expressão artística deverão estar no mesmo pé de igualdade, independentemente do tipo de sociedade no seio da qual se vêem nascer e se desenvolvem.
   Do Irão – por cima de cujo povo e de cujas cabeças se vislumbram já as afiadas garras da falcoaria americana – surge-me agora o nome de Hamid Bahrami, um jovem cartoonista de 35 anos, um ilustrador, um artista plástico de enorme e inquestionável talento, cuja obra poderá ser parcialmente vista no seu site
www.hameedbahrami.com .
   Aconselho-vos vivamente a fazerem-no.

publicado por jdc às 12:01
link do post | comentar | ver comentários (5) | favorito

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 1 seguidor

.pesquisar

.Outubro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Myanmar Livre

. As Palavras Escapam-se-me...

. O Suaíli

. Assim Não Quero Ser!

. A Poesia do Silêncio

. El Tigre

. Kopi Luwak

. Diálogos à solta (4)

. É agora, Zé!

. O Que é o TENORI-ON

.arquivos

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

.tags

. todas as tags

.links

blogs SAPO

.subscrever feeds