Quarta-feira, 19 de Setembro de 2007

Um Caso Perdido

    

     — Nem que me arrastem pelos tornozelos! — exclamei eu para a minha mãe, furibundo, levantando-me da mesa de rompante, sem sequer me preocupar em pedir licença.
     Depois daquela inenarrável viagem que eu fizera com o meu pai a Coimbra, em que acabei por ser analisado, dos pés à cabeça, pela anaconda da doutora Leonilde, dado que o especialista para quem o doutor Duarte me despachara por causa da assanhada efervescência que me vinha atormentando a moleirinha, o doutor Piteira, tinha entretanto morrido com uma cirrose no fígado, a minha mãe, coitada, quando o meu pai lhe disse que a médica não me tinha receitado nada e conhecendo-a como eu a conhecia, deve ter tido daqueles raciocínios radicais em que costumava ser fértil e cogitado coisas assim do género:
     «Bom, se não lhe receitaram nada, é porque não há nada a fazer. E se não há nada a fazer, ai meu Deus, é porque é um caso perdido, e se é um caso perdido, ai minha rica Nossa Senhora, meu querido filho, é porque realmente não há mesmo nada a fazer, nem com papas de linhaça. Só um milagre. E para fazer um milagre, como toda a gente sabe, ninguém mais habilitado e com melhores referências que a Nossa Senhora de Fátima».
     — É isso mesmo, vamos a Fátima! — exclamou ela de repente a meio do jantar, com uma entoação tão determinada que não deixava qualquer margem de manobra ao meu pai, impedindo-a certamente o decoro de acrescentar, como era vezeira em fazer, o seu «e não se fala mais nisso!».
     Não sei porquê, não gostei nada da forma como dissera aquele seu «vamos». Fez-me suspeitar que eu estaria obrigatoriamente incluído.
     — E vamos a pé! — acrescentou, sem nos ter deixado recuperar do abalo.
     — E o miúdo? — perguntou o meu pai, descansado, pois sabia perfeitamente que se alguém tivesse de ficar, como era o caso, teria de ser ele.
     — Vai de triciclo! — ouvi-a eu responder, toda despachada.
     Tive de segurar o queixo para que não me caísse de espanto dentro do espaguete.
     — Trezentos quilómetros de triciclo? — inquiriu o meu pai, parecendo dar pouco crédito àquilo que se assemelhava a uma perfeita insanidade.
     — Eu prometi só de Leiria a Fátima, que o miúdo não deve aguentar mais que isso.
     Apesar da substancial redução quilométrica, foi aqui que fiquei completamente fora de mim e vociferei aquele «nem que me arrastem pelos tornozelos!» pois sabia que, em idênticas circunstâncias, forçando umas quantas rugas na testa e desorbitando um pouco os olhos, eu obtinha os mais espectaculares resultados e conseguia sempre tudo aquilo que queria. Toda a gente receava, no caso de me contrariarem, que pudesse vir a entrar em parafuso e dar-me uma camoeca qualquer. Daí que — como dois e dois serem quatro — ninguém querer arriscar…
     — E escusas de fazer essas rugas na testa e de desorbitar esses olhos, que isso comigo já não pega! — avisou a minha mãe inabalável, espetando-me o seu dedo indicador quase por entre os olhos.
     Pouco depois, sozinho com o meu pai, tentei fazer ver-lhe a injustiça do castigo. Sim, dizia eu, que aquilo não era uma promessa, era um verdadeiro suplício e uma autêntica condenação a trabalhos forçados. E ainda por cima, acrescentava, eu até nem sequer sabia andar de triciclo, que aquela roda da frente sempre me fizera uma confusão dos diabos.
      — E tudo isto — rematei eu — porque a minha mãe não consegue distinguir a verdade científica mais objectiva dos insondáveis e misteriosos dogmas da fé.
     — Olha a precocidade, meu filho!… Olha a precocidade!… — aconselhou-me ele, arregalando os olhos, quase recriminador.
      — Mas fala com ela?… — perguntei suplicante, agarrando-me àquela que eu sabia ser a minha única tábua de salvação.
     No dia seguinte, aproveitando a ida do meu pai à quinta do Couto, a minha mãe passou-me a ferro, aperaltou-me como se fosse para a primeira comunhão, pôs-me camadas indecentes de brilhantina no cabelo e fez-me girar à frente dela pela Rua de Cima acima. Destino: doutor Duarte.
     — Desengane-me, senhor doutor — pranteava-se a minha mãe, depois de se sentar na borda da cadeira. — Diga-me ao menos quanto tempo lhe resta.
      — Quanto tempo lhe resta de quê? — perguntou o médico, sem perceber patavina do que ela estava a dizer. — Está a falar-me de quem?
     — Aqui do meu rapaz, senhor doutor. Como não lhe receitaram nada… — E ao dizer isto, apertava-me de lado contra o peito com tanta força que pensei até que asfixiava.
     Bom, nem imaginam o raspanço que pregou à minha mãe.
     — Ouça lá! — exclamou ele, levantando-se irado e perdendo completamente a compostura. — Lá pelo seu filho, apesar da pouca idade, ter um historial clínico que dava para escrever um romance sei lá de quantas páginas e de eu, por causa disso, sempre ter pensado que ele não era deste mundo e tudo levar a crer ter sido aqui abandonado por um disco voador que não queria ficar com ele, eu sou um profissional, ouviu?
     Vi a minha mãe ficar lívida e recuar na cadeira, assustada.
     — Sempre tratei da forma mais empenhada as doenças mais estrambólicas do seu filho. Ele foram as bexigas loucas, a pleurisia, a varicela, o sarampo, a escarlatina, as broncopneumonias…
     E eu olhava apalermado para ele, não querendo acreditar que já tivesse tido aquelas porcarias todas.
     — …papeira, nós na tripa, os inchaços das mordidelas das pulgas, cefaleias, dermatites seborreicas, gengivites e até úlceras duodenais. Recorri às mais diversas enciclopédias, aos mais estranhos prontuários. Até em livros de bruxaria eu tive de vasculhar. Fiz das tripas coração, mas curei-o de tudo, não curei?
     A minha mãe, de olhos cabisbaixos, assentia em silêncio com a cabeça.
     — Mandei-o a Coimbra porque precisava da opinião, não de um especialista qualquer, mas do melhor especialista que havia no país. Infelizmente não foi possível pois ele morreu entretanto. Mas foi visto por uma sua discípula que apesar de ser gorda como uma anaconda…
     — Porque tem gases, coitada!… — arrisquei-me a acrescentar.
     — …é uma médica muito competente — continuou o doutor Duarte, deitando-me um olhar de estranheza. — E o facto de não lhe ter receitado nada, não quer dizer que o seu filho seja um caso perdido, santinha. É porque não vale a pena, que diabo. Basta que deixe de tomar aqueles excitantes todos que ela disse para deixar de tomar.
     — Mas ao menos — arriscou a minha mãe — podia ter-lhe receitado óleo de fígado de bacalhau, senhor doutor, que era para ver se ele me engordava e ganhava mais um bocado de cor, o desgraçado.
     — Pois que não seja por isso — acrescentou o médico, começando de imediato a rabiscar uma receita.
     É evidente que fiquei verde com a sugestão, mas muito pior ainda quando a minha mãe, a caminho da farmácia, me disse toda contente que o sacana do gajo me tinha receitado precisamente aquilo que eu mais abominava na vida: óleo de fígado de bacalhau.
     — Ou Fátima ou o óleo de fígado de bacalhau! — exclamei eu, indignado, quando ao almoço e com as costas quentes pela presença do meu pai, a minha mãe se preparava para me enfiar aquela mistela horrorosa pelas goelas abaixo. — As duas coisas ao mesmo tempo é que não pode ser!
     — Tem lógica! — observou, lacónico, o meu pai.
     — Mas eu prometi ir a Fátima — disse a minha mãe em jeito de desculpa. — Não posso voltar atrás.
     — Com licença! — vociferei com raiva, tirando-lhe resoluto das mãos a colher cheia daquela porcaria rançosa, olhando de soslaio para o meu pai e enfiando-a na pia de lavar a loiça.
     — Mas então vamos a Fátima! — exigiu a minha mãe, em desespero de causa.
     — Pois que seja a Fátima! — acrescentei eu, resignado. — Mas primeiro tenho de aprender a andar de triciclo.
     — Um ano ou dois devem chegar — adiantou o meu pai, esboçando um ligeiríssimo sorriso.
publicado por jdc às 10:14
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Terça-feira, 18 de Setembro de 2007

10 Minutos

    

     Constou agora que na conversa de uma hora que José Sócrates manteve ontem em Washington com Georg W Bush, o primeiro-ministro português e presidente em exercício da União Europeia, teria passado 10 longos minutos a tentar explicar ao presidente americano onde ficava Portugal.
     «Madrid no, mister president!» teria acrescentado por fim Sócrates, já exasperado e quase desistindo por ver tamanha ignorância. «Our capital is Lisbon…, Lisboa, you see? Many centuries ago. Since one thousand one hundred...» E virando-se para o ministro dos negócios estrangeiros: «Exactamente desde quando, ó Luís?»

publicado por jdc às 20:57
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Gases

    

     Depois da inesperada notícia da morte do doutor Piteira, o especialista de Coimbra onde o doutor Duarte mandou o meu pai levar-me como derradeira hipótese para suprir as suas insuficiências e eventualmente os meus problemas de excitação exacerbada, restava-nos decidir se eu iria ser observado pela substituta do falecido — a canastrona que só não me mandou para os anjinhos com uma valentíssima lambada porque o meu pai lhe aparou a tempo o golpe —, ou, em alternativa, íamos de mãos a abanar para os Arcos.
     Pela minha parte já me tinha decidido. E o meu raciocínio não podia ser mais linear: com o cabedal da sujeita e o meu feitio, um novo encontro entre os dois seria irremediavelmente fatal para a minha saúde.
     Valendo-se dos seus melhores argumentos e depois de muito suar, o meu pai lá me conseguiu convencer a ir à consulta da tal doutora Leonilde. Naquele seu tom de voz que deixava sempre transparecer serenidade e placidez, com um toque até de alguma bonomia, foi-me dizendo que a médica, apesar daquela gordura toda e de parecer realmente uma anaconda — nessa altura deu-me um toque com o cotovelo no ombro e notei que se abriu num sorriso conivente —, não devia ser má senhora pois, coitada, o problema dela até poderia muito bem ser que fossem gases.
     — Gases?! — estranhei eu, mostrando-me deveras céptico. — Não acredito!
     — Sim, gases! — reafirmou o meu pai, que passou a desenvolver a sua teoria:
     — Nós respiramos, não é verdade?
     — Respiramos! — confirmei eu. — E depois?
     — E depois, devem ser daqueles gases que nos entram assim sub-repticiamente pela boca e, em vez de irem pela traquéia como normalmente acontece, passam directamente ao esófago. Por circunstâncias que a ciência ainda não conseguiu determinar, mas provavelmente devido aos sustos que a gente apanha, ou talvez por alguma corrente de ar, esses gases entram pelo tubo digestivo abaixo para finalmente — e aqui sim, já se sabe a razão —, por influência do ácido clorídrico gerado no estômago devido às leguminosas que nós comemos, se criar uma corrente quente que, deslocando-se no sentido ascendente, comprime o diafragma, fazendo com que o ar se infiltre rapidamente por tudo quanto é vaso capilar.
      Vi-o olhar por instantes para o tecto, pensativo, certamente tentando confirmar se não lhe teria escapado algum pormenor. Aconchegou a minha cara entre as suas mãos e ergueu-me suavemente a cabeça de forma a que os meus olhos encontrassem os seus. Dando ênfase a cada palavra, acrescentou:
     — E é isso, resumidamente, o que faz as pessoas inchar e ficarem gordas, estás a perceber?
     — Como a anaconda?
     — Exactamente, como a doutora Leonilde!
     Nunca cheguei a entender por que é que este meu pai, que até nem era um sujeito assim tão alto, tinha tanta sabedoria acumulada, dominando de forma tão irrefutável todas estas complexas teorias. Tinha a certeza de que, se alguma vez o quisesse, facilmente se lhe escancarariam as portas para leccionar nas mais prestigiadas universidades. Nas americanas, por exemplo.
     —Não, não estou a perceber! — menti eu, abanando a cabeça, ansioso por me poder maravilhar de novo com tamanha lucidez argumentativa e vendo-o já a metodizar sobre tão cativantes assuntos.
     — Quando fores grande perceberás melhor! — exclamou ele, reparando no sorriso matreiro que eu acabara de esboçar, mas trocando-me as voltas, talvez cansado pela energia despendida ao verbalizar tão convincentes preposições. — E agora vamos!
      — Mas pelo elevador não! — impus eu, aflito.
     — Está bem, pelo elevador não! — assentiu ele, passando a mão sobre o meu ombro direito e impelindo-me para as escadas.
    — Ai eu não vou esperar por esta gente toda! — avisei eu, já na sala de espera do consultório, virado para o meu pai, furioso, depois de me ter dado conta que tinha dezassete pessoas à minha frente. — É que nem pensar nisso!
     —O menino dos Arcos? — perguntou, pouco tempo passado, a empregada vinda de lá de dentro.
     Falara cedo demais, eu. Sou forçado a reconhecer que esta minha maneira de ser tão aberta e espontânea, que me leva a não me debruçar convenientemente sobre os problemas que me surgem e que às vezes me faz ferver em pouca água, ainda há-de ser a minha desgraça. No fundo, como dizia o meu pai, a abadessa da médica até que nem era má sujeita e, ao ver que nós éramos de tão longe, passou-nos à frente daquela catrefada de gente toda.
     Entrei, pela mão do meu pai, com os olhos pregados ao chão. Não sei porquê, não me sentia com coragem para olhá-la de frente.
     — Então tu és o rapaz que vem dos Arcos! — exclamou, puxando-me para ela e encostando-me àquela barriga descomunal.
     Mandavam as regras da boa educação que sorrisse, pelo menos. Olhei-a lá para cima, bem para o cume da montanha, e mostrei os dentes num esboço de simpática candura. O meu pai, entretanto, entregou-lhe a carta que o doutor Duarte mandara e que ela leu depois de ser ter deixado cair pesadamente na cadeira.
     Mandou-me despir da cintura para cima e auscultou-me o peito. «Respira fundo!», «isso!», dizia ela, «outra vez!», «lindo menino!», «agora as costas!». Logo a seguir pediu para me sentar e dependurar as pernas. Com um martelo, deu-me umas cacetadas nos joelhos que até os sapatos me iam voando pelos pés fora. Viu-me os olhos com um foco e, finalmente, talvez para justificar o conto e meio que no fim levou ao meu pai pela consulta, remexeu-me nos cabelos, provavelmente à procura de bicharia.
     — Vai ter que deixar de tomar chá, café, ou comer chocolates. Tudo o que sejam excitantes — sentenciou no final.
     — E medicamentos não toma, senhora doutora? — perguntou o meu pai, admirado.
     — O único remédio de que o seu filho precisa, é só um pouco de pimenta na língua, de vez em quando! — disse ela, dando uma sonora gargalhada.
     Apesar de não ter percebido a piada — e pelos vistos o meu pai também não, por que se limitou a esboçar um sorriso amarelo —, eu começava já a simpatizar com a sujeita, tanto mais que, ao despedir-se, me deu dois caramelos e fez-me uma festa na cabeça.
     Ainda não tínhamos ultrapassado a porta, larguei a mão do meu pai e vim um pouco atrás, em direcção à doutora. Segurei-me com as duas mãos na beira da secretária, mirei-a bem de frente e com um olhar apiedado perguntei-lhe:
     — O que a senhora tem são gases, não são?
     Não sei porquê, o meu pai, de um repelão, agarrou-me pelo braço e arrastou-me por ali fora, fechando rapidamente a porta atrás de si.
     De lá de dentro do consultório ainda ouvi um berro qualquer e um estardalhaço enorme que me pareceu ser o barulho de cacos a desfazerem-se contra a porta.
Para desgosto meu, nunca cheguei a saber o que se passara, tanto mais que nem eu nem o meu pai tornámos a trocar impressões sobre o assunto. Ou voltámos a Coimbra, sequer.
publicado por jdc às 12:53
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Segunda-feira, 17 de Setembro de 2007

Essa Cruz que é o Darfur

    

     José Vieira é um missionário comboniano de 47 anos, que neste momento presta serviço em Juba, nas margens do Nilo Branco, a sul do Sudão, depois de já ter estado durante oito anos numa aldeia montanhosa da Etiópia em missão pastoral.
     Porque o Darfur lhe está próximo e porque vive de perto esse drama humanitário, para nós tão nebuloso e distante - ontem foi um dia em que internacionalmente, um pouco por todo o lado, se procurou chamar a atenção para esta causa -, resolvi pegar num texto do seu
blogue e publicá-lo aqui, para que nos possamos juntar ao coro de protesto por uma situação impensável e inaudita entre gente civilizada, e para que se possa dar um fim imediato à chacina de uma população indefesa, que sucumbe dia-a-dia quer através da força das armas, quer através da supressão dos alimentos mais básicos e elementares à vida humana.

     «O DRAMA HUMANO ESQUECIDO

     Em apenas quatro anos, morreram no Darfur, vítimas da guerra, da fome ou da doença pelo menos 200 mil pessoas na sua larga maioria civis indefesos.
     Calcula-se que pelo menos 2,3 milhões de pessoas tenham sido obrigadas a deixar as suas casas. Mais de 4 milhões dependem exclusivamente da ajuda humanitária.
     Os ataques às populações sucedem-se em redor dos próprios campos de deslocados.
     Os agentes da ajuda humanitária são também alvos frequentes das milícias, que procuram paralisar a sua actuação, agravando ainda mais a situação de extrema debilidade de milhões de pessoas refugiadas.
     Entretanto o conflito ultrapassou as fronteiras do Sudão, com mais de 200 mil darfurianos a fugirem para o Chade e para a República Centro-Africana, aonde continuam a ser perseguidos pelas milícias Janjauid.

     A SITUAÇÃO ACTUAL

     A decisão da ONU do envio de uma força híbrida de paz em conjunção com a União Africana (UNAMID) para a região, do dia 31 de Julho, muito embora tardia, vem finalmente trazer alguma esperança a estas populações.
     Por outro lado, a maioria dos grupos em armas contra Cartum reuniu-se em Arusha, Tanzânia, e decidiu retomar as negociações de paz com o Governo.

     QUE FAZER?

     A pressão da sociedade civil é agora fundamental para conseguir a pronta articulação internacional e a mobilização dos meios humanos e materiais necessários ao rápido estabelecimento do contingente que garanta a segurança na região.
     Por outro lado, a comunidade internacional tem que manter o Governo de Cartum sob pressão para voltar à mesa das negociações e negociar uma solução política para o Darfur.
     A Plataforma pelo Darfur está a recolher assinaturas para colocar a questão do Darfur na Agenda da Cimeira Europa-África que decorre em Lisboa a 8 e 9 de Dezembro.
     Assina
AQUI a petição.
     Circula a campanha através dos teus contactos.
    Unimo-nos por Timor-Leste. Agora é a vez de dar a mão à população martirizada do Darfur.»
publicado por jdc às 17:28
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A Consulta

         

     «Mas isto é um elevador, palerma!», exclamava, desesperado, o meu pai, desdobrando-se em explicações, enquanto eu, que me derretia em lágrimas, fazia uma cena de morte e me recusava terminantemente a entrar naquela gaiola de grades de correr, com a alegação, em meu entender irrefutável, de que o meu pai já não gostava mais de mim e de que tudo aquilo não passava de um plano maquiavélico urdido com a conivência da nossa vizinhança em peso, mais a da minha professora, a dona Eduartina, com o evidente propósito de se verem livres de mim e de me despacharem numa jaula, a grande velocidade, para o circo Mariano.
     Percebo agora, aliás, porque é que o doutor Duarte, o homem que me tirou cá para fora a troco de sete notas e meia de conto, fazia tanta questão em que o meu pai me trouxesse ao especialista a Coimbra. Obviamente que estava tudo mancomunado.
     — Vai subir? — perguntou uma senhora gorda acabada de chegar, virada para o meu pai.
     — Eu gostava, mas primeiro queria ver se convencia aqui o meu filho a meter-se no elevador.
     — E vamos ter que ficar à espera até que o catraio se decida?
     Malcriada, a sujeita. Custava alguma coisa fazer-me uma festa na cabeça, como qualquer pessoa normal costuma fazer aos miúdos?
     — São só mais uns segundos, minha senhora, desculpe! — justificou-se o meu pai com aquela boa educação que cativava sempre toda a gente. E virando-se para mim: — Vês o incómodo que estás a causar às pessoas?
     Fiz uma cara de quem não percebera a pergunta, até porque a minha preocupação naquele momento era outra.
     — Também vai para o circo Mariano, esta senhora? — perguntei eu ao meu pai, mirando-a de alto a baixo e pensando que, a avaliar pela gordura dela, decerto eu iria ter companhia.
     Vi-a olhar muito séria para o meu pai, fazer-lhe um aceno de cabeça e empinar o nariz, ao mesmo tempo que levava o indicador direito à altura do canto da testa e, em silêncio, fazia com ele um movimento circular.
     — Estou maluco, o caraças! — exclamei eu em voz alta, indignado, dando-lhe ao mesmo tempo uma monumental pisadela para me vingar da indelicadeza da pergunta e da torpeza do insulto.
     A gorda deu uns ais de aflição, bufou tal e qual um touro bravo, fitou-me de frente, enfurecida, semicerrou os olhos e tomou balanço preparando-se para me pregar uma valentíssima lamparina. Não fosse o meu pai adivinhar-lhe o gesto e estancar-lhe o braço ainda em pleno vôo, seria eu já a esta hora um puto morto ou, na melhor das hipóteses, teria dado entrada, de ambulância e tudo, na urgência dos politraumatizados do Hospital de Coimbra.
     O porteiro do prédio que notara a escaramuça e estava já há muito de olho em nós — que eu vi —, aproximou-se devagar, como quem pisa ovos, com o jornal que estava a ler dependurado, perguntando-nos, com cara de poucos amigos, se havia azar.
     — Claro que há! — gritou, já histérica, a gorda. — Então você não vê que o maluco do miúdo e o mal-educado do pai não me querem deixar entrar no elevador?
     O meu pai trouxera-me a um especialista a Coimbra, a conselho do nosso médico dos Arcos, por não fazer a mínima ideia do que é que eu tinha. Estávamos agora no átrio do prédio onde o doutor Piteira, o tal especialista, tinha o consultório no quarto andar.
     Reconheço que esta viagem — a minha primeira viagem de combóio — fora longa e cansativa. Que estava completamente exausto e com o raciocínio um pouco toldado, sem qualquer clarividência. Talvez por isso mesmo não estivesse na disposição de admitir que nada nem ninguém neste mundo me obrigasse a ter paciência para aturar uma sujeita gorda que eu não conhecia de parte nenhuma e ainda por cima — para mim o mais grave — sendo, como ela era, uma peixeira diplomada.
     — Para o quinto, não é verdade, senhora doutora? — perguntou-lhe o porteiro, tentando acalmar a bicha.
     Depois dela entrar, vi-o inclinar-se para o interior do elevador e carregar num botão qualquer. Com uma leve vénia fechou as grades da porta e o ascensor arrancou por ali a cima.
     — Oxalá essa porcaria — berrei eu, por entre as grades — venha por aí abaixo aos trambolhões quando chegar ao quinto andar, sua anaconda da merda.
     — Não se diz isso, menino! — repreendeu-me o meu pai, com pouca convicção.
     O porteiro quis, entretanto, saber ao que vínhamos.
     — À consulta do doutor Piteira — respondeu-lhe o meu pai.
     — Então o senhor não sabe o que se passou? — perguntou o porteiro, pondo subitamente uma cara de infeliz.
     Perante o absoluto desconhecimento demonstrado pelo meu pai — e já agora por mim também, que eu nestas coisas gosto de ser solidário —, o porteiro contou-nos que o doutor Piteira tinha morrido há dois dias com uma cirrose no fígado. Uma coisa horrorosa, dizia ele. Ia já verde no caixão, o coitado, e deitava um cheiro de fazer cair o S. Jorge do cavalo.
     — Mas não se apoquente que não tem problema nenhum — acrescentou ele, solicito. — A doutora Leonilde ficou com todos os pacientes dele.
     — E o consultório é longe daqui? — quis saber o meu pai, com cara de preocupado.
     — É aqui no próprio prédio, meu amigo! — exclamou, radioso.
     Vi o meu pai respirar de aliviado. Reconheci aquele ar que ele punha quando sentia nem tudo estar perdido.
     O porteiro que, entretanto, colocara um daqueles sorrisos patetas, achou por bem acrescentar:
     — É aquela senhora forte que acabou de subir para o quinto andar…
     Foi como se me tivessem dado com uma bola de futebol no estômago, com toda a força. Senti-me de tal forma angustiado, deu-me tal vontade de chorar, que só tive alento para fazer um bico com os lábios e balbuciar fungoso:
     — Pai… quero ir embora para casa!
     — Já vamos, meu filho, já vamos! — disse ele, coçando a cabeça.
publicado por jdc às 16:05
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Domingo, 16 de Setembro de 2007

Como nos Filmes

    
 
     Estranhei, logo após as primeiras provas do campeonato do Mundo de Fórmula 1 deste ano, a MacLaren/Mercedes arrebanhar tudo quanto eram vitórias e a Ferrari, que nos últimos anos, graças a uma tecnologia inultrapassável e a um piloto fora do comum, levava tudo à sua frente, ficar a zero.
     E essa minha estranheza, essa coceira que inexplicavelmente me destrambelhava o couro cabeludo tinha um nome: espionagem industrial.
     A MacLaren, recorrendo aos mais diversos esquemas, subtraiu informação técnica privilegiada à Ferrarri, o que lhe veio a permitir a cópia de equipamentos vitais, de tecnologia de alto desempenho roubada à scuderia italiana, que viria a ser implantada nos seus motores, nas suas máquinas.
     A Federação Internacional de Automóvel, após queixa da Ferrari, deu-a como procedente, multou a MacLaren e obrigou-a a retirar dos seus carros todas as peças e sistemas concebidos pela marca italiana.
     Parece argumento de filme, mas não é. Aconteceu esta semana.
publicado por jdc às 22:08
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A Primeira Viagem

    

     — Não será melhor levar o miúdo ao doutor para ver o que é que ele tem? — ouvi uma vez a minha mãe a perguntar ao meu pai.
     Ora o que o miúdo tinha — e adivinharam já certamente que o miúdo era eu — é que, volta não volta, vira não vira, dava trambolhões desgraçados, desmaiava quando se excitava demais, e, segundo parecia, tinha uma mola qualquer no cérebro que lhe saltava quando menos se esperava.
     O doutor Duarte, o médico que me tirou cá para fora e a quem o meu pai recorria sempre que eu tinha algum problema que não passava com chás de tília, já farto das sintomatologias bizarras que eu invariavelmente apresentava, e das patologias mais ou menos disparatadas que ele com muita proficiência me diagnosticava, mas que, invariavelmente, o colocavam no estado da maior debilidade emocional, confessou nesse dia ao meu pai enquanto, desanimado, atirava com o estetoscópio para o canto mais longínquo da secretária:
     — Este seu filho, meu amigo, há-de levar-me à loucura! E vai ser, mais cedo do que toda a gente pensa, o principal responsável por eu abandonar definitivamente a medicina, pode crer!
     Vi o meu pai aflito, sem saber o que dizer, a cravar em mim o olhar da sua mais profunda recriminação, enquanto eu, imperturbável, aproveitava esse ínterim, para fazer ginástica nos ferros da balança nova do doutor.
     — Aliás, para lhe ser franco — continuou o médico — eu nem sequer faço a menor ideia do que é que o seu filho tem neste momento! — para logo a seguir rematar, lavando as mãos como Pilatos: — O melhor mesmo é levá-lo a um especialista que há em Coimbra.
E passados nove dias — que nisto o meu pai não era homem de esperar —, lá estava eu, de pardejo às bolas posto, casaco de veludo preto e calças à golfe, a entrar para o combóio em Braga. Estava um frio de rachar.
     Lembro como se fosse hoje, já tínhamos passado Gaia, de ter manifestado ao meu pai o meu mais ardente desejo de puxar uma argola vermelha linda de morrer, que vi dependurada na parede da carruagem. E com tanta veemência o fiz, que o meu pai, longe de me querer contrariar assim directamente, não fosse dar a macacoa ao menino, se viu obrigado a chamar um senhor de farda e boné que, já sem paciência nenhuma perante a minha insistência, com um ar subitamente esgazeado e espumando até pelos cantos da boca, ameaçou furar-me as orelhas com um alicate que trazia na mão, caso eu não recuasse na minha intenção de puxar a tal argola vermelha.
     Não sei quanto tempo depois — ainda demoraria um bom par de anos até eu ter o meu primeiro relógio de pulso — o meu pai, que se entretinha a ler as notícias, dobrou o jornal, levantou-se e, com a eloquência que sempre lhe admirei, virou-se para mim e exclamou:
     — Vamos!
     — Chegámos? — perguntei eu de baixo para cima, tentando imitar-lhe a oratória.
     — Não!
     Recordo-me de ter atravessado na sua frente, balanceando de um lado para o outro, os longos e estreitos corredores de três ou quatro carruagens e, finalmente, ter desembocado numa outra cheia de lustres no tecto, com mesas alinhadinhas umas a seguir às outras e com cadeirões esverdeados. Coisa muito bonita, mesmo.
    — Então isto é que é a Ópera? — perguntei eu ao meu pai, perfeitamente abismado com tanto luxo.
     A resposta tive-a a seguir, logo após ele me ter recomendado para não dizer mais disparates e me sentou junto à janela, naquele cadeirão tão fofo que nem poltrona de arcebispo e vi, bem à minha frente, o aparato mais deslumbrante que jamais me fora dado a apreciar numa mesa de comer: Só para mim, pratos eram três, cada um de seu tamanho e uns assentes em cima dos outros. De cada lado dos pratos, garfos e facas eram mais de cinquenta. Colheres não vi bem, mas de certeza para aí doze. Copos, até para ginja havia. Ah!, e um guardanapo dobradinho e limpo que devia ser para pôr no regaço, como faziam as meninas finas.
     Trouxeram então um livro de capa castanha, que o meu pai leu num instante e com a melhor das atenções. De tão deslumbrado que eu estava com o que me rodeava que só deu para ouvir as últimas palavras dele para o empregado:
     — A mesma coisa para o miúdo!
     O meu pai chamou-lhes, com os olhos cintilantes, do lombo. Aos bifes, claro. Vieram numa travessa cheia de floreados, eram da altura de três dedos e reluzentes como trutas. No meu prato, a rodearem o bife, puseram-me três ou quatro batatas fritas. Uma miséria de poucas. De tão poucas que me levou, de imediato, a deitar um tal olhar ao empregado que, não fosse ele estar a segurar a travessa, cairia redondo no chão, de certeza fulminado.
     — Se o menino quiser, eu depois trago mais — titubeou ele, ao ver-me nos olhos a vontade determinada de o comer vivo. — É só pedir!
     Pôs-me a seguir dentro do prato — tudo com uns salamaleques danados —, uma mixórdia verde qualquer, com um ovo estrelado em cima.
     — Esparregado! — esclareceu o meu pai, quando me viu, com ar interrogativo, apontar para aquela mistela e a fazer uma cara típica de quem tinha acabado de tomar óleo de fígado de bacalhau.
     — Experimenta, que vais ver que é bom! — aconselhou ele, estimulando-me.
     E estava eu, deveras deliciado, dando razão ao meu pai, quando, de repente, me vejo a seguir o trajecto de uma mosca enorme que, vinda de lá do fundo da carruagem e por certo desnorteada com o aroma tão embriagante do bife, veio estatelar-se, em vôo suicida, precisamente contra o meu ovo estrelado.
     Ainda tentei, com o polegar e o indicador — como estava farto de o fazer — pegar-lhe por uma asa, preservando assim, não a vida da mosca, que nunca tive vocação para nadador-salvador, mas a integridade do ovo que me estava a saber tão bem.
     — Espera! — disse o meu pai, segurando-me no braço e interrompendo, dessa forma tão abrupta, a operação de resgate. — Vamos pedir outro!
     Detestei que me fizesse aquilo, como detestava, aliás, que alguém me contrariasse. Ao levantar a mão para chamar o empregado, o meu pai teve que me largar o braço. Este gesto foi providencial, tanto mais que me permitiu agarrar rapidamente a mosca com os dedos e metê-la, mais rapidamente ainda, debaixo do guardanapo. E tudo isto para que ninguém de entre a ilustre clientela que recheava o restaurante, viesse a suspeitar da clara javardice que eu sabia estar a levar a cabo em tão luxuoso ambiente.
     Limitei-me depois, como se nada tivesse acontecido, a comer o ovo de uma só assentada, com uma colher das de sopa.
     — Então tu vais-me fazer uma coisa dessas, palerma? — interpelou o meu pai, verde de horrorizado, depois de ter constatado o desaparecimento do ovo. — Comer essa porcaria com a mosca?… Tu és maluco, porventura?
     Depois de ter sentido o ovo a transpor-me o canal do esófago, antes que me dissesse mais qualquer coisa e naquele tipo de reacção de puro deleite que me era característico — e nunca por nunca da mais abjecta perversão como era sempre injustamente acusado —, virei-me bem para ele, estalei a língua contra o céu-da-boca, fechei os olhos e mandei um «Aaaaaahhhhh!» cá para fora, como se manda quando se bebe uma laranjada e as bolhinhas de gás começam a estalar todas na boca, transmitindo-nos aquela sensação porreira de se gostar e pedir mais.
     Notei-lhe, de imediato, o olhar frio da reprovação, o ríctus do mais inconsolável desgosto na face. Mas para que não continuasse naquele terrível desconforto de imaginar-se como responsável pela vinda a este mundo não de um filho querido e sossegado, como acontece a qualquer pai normal, mas de um monstro abominável e execrando, levantei o guardanapo ao de leve com a mão esquerda e, com a direita, apontei-lhe para a mosca que, de patas para o ar, era já definitivamente cadáver.
     Para completar o quadro, pisquei-lhe um olho. Vi-o suspirar de alívio, recostar-se lentamente na cadeira, inclinando a cabeça para trás. Deu para perceber nos seus lábios, como que numa inesperada cumplicidade, o mesmo sorriso gaiato que eu sabia ter herdado dele.

publicado por jdc às 12:31
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Sábado, 15 de Setembro de 2007

Iraque

    
     Jim Borgman no Cincinnati Enquirer de 12 de Setembro, a propósito da política de George Bush em relação ao Iraque.
publicado por jdc às 17:55
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Sexta-feira, 14 de Setembro de 2007

A Última Crónica

    

 

         Nascido em Belo Horizonte em 1923 e falecido no Rio de Janeiro em 2004, Fernando Sabino foi um prolífero e grande escritor brasileiro, praticamente desconhecido em Portugal, que conseguiu elevar a crónica – género tão peculiar da literatura brasileira – ao estatuto de destaque que indubitavelmente merece.
         «Ainda hoje», escreve Luiz Ruffato, «há certa resistência em compreender a crónica como género literário específico. Esse equívoco talvez possa assentar num preconceito e num estereótipo. O preconceito advém de sua dupla origem plebeia: nascida nas páginas dos jornais, veículo utilitário e descartável, é cultivada em troca de um salário no final do mês. Nada mais abominável para aqueles que imaginam um ofício aristocrático para as letras… Já o estereótipo é aquele que reduz a crónica a “um comentário ligeiro a respeito de assuntos quotidianos, vazado numa linguagem simples e directa”, como se “ligeiro” fosse sinónimo de “superficial”, “assuntos quotidianos” fossem “irrelevantes” e “linguagem simples e directa” equivalesse a “linguagem pobre e reducionista”».
         De Fernando Sabino, deixo aqui a sua última crónica.

     A ÚLTIMA CRÔNICA

     A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade, estou adiando o momento de escrever.
     A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo do seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer um flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num incidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem nada mais para contar, curvo a cabeça e tomo o meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: “assim eu quereria o meu último poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
     Ao fundo do botequim, um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acentuar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
     Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sobre a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando, imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade da sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho — um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma fatia triangular.
      A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de coca-cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
     São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a coca-cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam discretos: “parabéns pra você, parabéns pra você…” Depois a mãe recolhe as velas, torna a guarda-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura — ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo do bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. De súbito, dá comigo a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido — vacila, ameaça baixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
     Assim eu queria a minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

 

    

publicado por jdc às 11:54
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Quinta-feira, 13 de Setembro de 2007

Os Frios Invernos do Norte

    
 
     As manhãs de inverno no norte, diz quem sabe, costumam ser de quebrar os ossos. Sei, porque sou de lá, que quando não chove e o vento sopra, gélido, dos interiores da Galiza, é sempre um valha-nos Nossa Senhora e um Deus nos acuda.
     As pessoas, manhã cedo, sentam-se nos cafés, tiritando encolhidas, lançam os ombros para a frente e encobrem as mãos entre as pernas, tentando com o calor do seu próprio corpo suavizar o frio que lhes entorpece os músculos, lhes marca as faces, lhes corta o coração e a alma.
     São sete e meia da manhã, de um dia cinzento, de um Novembro de que já perdi o rasto. Sento-me a um canto mais abrigado do Arcuense, a dois passos do balcão.
     Àquela hora, por ser dia de feira, o café estava já cheio de gente da aldeia que se acotovelava, na ânsia de ser servida, de engolir qualquer coisa que lhes animasse as entranhas.
     Passa por mim, dirigindo-se para o balcão, uma mulher vestida de preto. Dobrara já os sessenta. As mesmas roupas e o mesmo preto que costumavam cobrir as mulheres dos nossos montes. Devia ser conhecida, pois o empregado cavaqueava com ela e começara a tratá-la pelo nome. Vi servir-lhe, num daqueles copos pequenos, bojudos, um líquido transparente, que adivinhei ser aguardente.
     Olhou para mim com um sorriso no qual me tornei deliberadamente cúmplice, ao mesmo tempo que pegava no copo e o levava à boca. Emborcou tudo de um só trago. Vi o seu corpo estremecer. Pensei que iria estatelar-se, redonda, ali no café, naquele chão frio de quadrados de mármore, mas enganei-me. Cortou-me a respiração vê-la lançar um «Aaarrghhh!» lancinante e fazer um esgar de pavoroso sofrimento, como se subitamente se tivesse precipitado nas mais crepitantes labaredas do inferno. Pelo canto do olho, com a cabeça levemente inclinada, mirou-me novamente, dizendo:
     — Não sei como é que os homens gostam disto!
     Levantou o avental, e duma pequena bolsa de cabedal escuro que tinha atada à cintura, retirou uma moeda qualquer. Pousou-a em cima do balcão e ordenou ao empregado, que mal tivera tempo para arrumar a garrafa:
     — Deita outro!
     Ah!, como eram frios aqueles invernos nos Arcos.
publicado por jdc às 22:46
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