Quarta-feira, 19 de Setembro de 2007

Um Caso Perdido

    

     — Nem que me arrastem pelos tornozelos! — exclamei eu para a minha mãe, furibundo, levantando-me da mesa de rompante, sem sequer me preocupar em pedir licença.
     Depois daquela inenarrável viagem que eu fizera com o meu pai a Coimbra, em que acabei por ser analisado, dos pés à cabeça, pela anaconda da doutora Leonilde, dado que o especialista para quem o doutor Duarte me despachara por causa da assanhada efervescência que me vinha atormentando a moleirinha, o doutor Piteira, tinha entretanto morrido com uma cirrose no fígado, a minha mãe, coitada, quando o meu pai lhe disse que a médica não me tinha receitado nada e conhecendo-a como eu a conhecia, deve ter tido daqueles raciocínios radicais em que costumava ser fértil e cogitado coisas assim do género:
     «Bom, se não lhe receitaram nada, é porque não há nada a fazer. E se não há nada a fazer, ai meu Deus, é porque é um caso perdido, e se é um caso perdido, ai minha rica Nossa Senhora, meu querido filho, é porque realmente não há mesmo nada a fazer, nem com papas de linhaça. Só um milagre. E para fazer um milagre, como toda a gente sabe, ninguém mais habilitado e com melhores referências que a Nossa Senhora de Fátima».
     — É isso mesmo, vamos a Fátima! — exclamou ela de repente a meio do jantar, com uma entoação tão determinada que não deixava qualquer margem de manobra ao meu pai, impedindo-a certamente o decoro de acrescentar, como era vezeira em fazer, o seu «e não se fala mais nisso!».
     Não sei porquê, não gostei nada da forma como dissera aquele seu «vamos». Fez-me suspeitar que eu estaria obrigatoriamente incluído.
     — E vamos a pé! — acrescentou, sem nos ter deixado recuperar do abalo.
     — E o miúdo? — perguntou o meu pai, descansado, pois sabia perfeitamente que se alguém tivesse de ficar, como era o caso, teria de ser ele.
     — Vai de triciclo! — ouvi-a eu responder, toda despachada.
     Tive de segurar o queixo para que não me caísse de espanto dentro do espaguete.
     — Trezentos quilómetros de triciclo? — inquiriu o meu pai, parecendo dar pouco crédito àquilo que se assemelhava a uma perfeita insanidade.
     — Eu prometi só de Leiria a Fátima, que o miúdo não deve aguentar mais que isso.
     Apesar da substancial redução quilométrica, foi aqui que fiquei completamente fora de mim e vociferei aquele «nem que me arrastem pelos tornozelos!» pois sabia que, em idênticas circunstâncias, forçando umas quantas rugas na testa e desorbitando um pouco os olhos, eu obtinha os mais espectaculares resultados e conseguia sempre tudo aquilo que queria. Toda a gente receava, no caso de me contrariarem, que pudesse vir a entrar em parafuso e dar-me uma camoeca qualquer. Daí que — como dois e dois serem quatro — ninguém querer arriscar…
     — E escusas de fazer essas rugas na testa e de desorbitar esses olhos, que isso comigo já não pega! — avisou a minha mãe inabalável, espetando-me o seu dedo indicador quase por entre os olhos.
     Pouco depois, sozinho com o meu pai, tentei fazer ver-lhe a injustiça do castigo. Sim, dizia eu, que aquilo não era uma promessa, era um verdadeiro suplício e uma autêntica condenação a trabalhos forçados. E ainda por cima, acrescentava, eu até nem sequer sabia andar de triciclo, que aquela roda da frente sempre me fizera uma confusão dos diabos.
      — E tudo isto — rematei eu — porque a minha mãe não consegue distinguir a verdade científica mais objectiva dos insondáveis e misteriosos dogmas da fé.
     — Olha a precocidade, meu filho!… Olha a precocidade!… — aconselhou-me ele, arregalando os olhos, quase recriminador.
      — Mas fala com ela?… — perguntei suplicante, agarrando-me àquela que eu sabia ser a minha única tábua de salvação.
     No dia seguinte, aproveitando a ida do meu pai à quinta do Couto, a minha mãe passou-me a ferro, aperaltou-me como se fosse para a primeira comunhão, pôs-me camadas indecentes de brilhantina no cabelo e fez-me girar à frente dela pela Rua de Cima acima. Destino: doutor Duarte.
     — Desengane-me, senhor doutor — pranteava-se a minha mãe, depois de se sentar na borda da cadeira. — Diga-me ao menos quanto tempo lhe resta.
      — Quanto tempo lhe resta de quê? — perguntou o médico, sem perceber patavina do que ela estava a dizer. — Está a falar-me de quem?
     — Aqui do meu rapaz, senhor doutor. Como não lhe receitaram nada… — E ao dizer isto, apertava-me de lado contra o peito com tanta força que pensei até que asfixiava.
     Bom, nem imaginam o raspanço que pregou à minha mãe.
     — Ouça lá! — exclamou ele, levantando-se irado e perdendo completamente a compostura. — Lá pelo seu filho, apesar da pouca idade, ter um historial clínico que dava para escrever um romance sei lá de quantas páginas e de eu, por causa disso, sempre ter pensado que ele não era deste mundo e tudo levar a crer ter sido aqui abandonado por um disco voador que não queria ficar com ele, eu sou um profissional, ouviu?
     Vi a minha mãe ficar lívida e recuar na cadeira, assustada.
     — Sempre tratei da forma mais empenhada as doenças mais estrambólicas do seu filho. Ele foram as bexigas loucas, a pleurisia, a varicela, o sarampo, a escarlatina, as broncopneumonias…
     E eu olhava apalermado para ele, não querendo acreditar que já tivesse tido aquelas porcarias todas.
     — …papeira, nós na tripa, os inchaços das mordidelas das pulgas, cefaleias, dermatites seborreicas, gengivites e até úlceras duodenais. Recorri às mais diversas enciclopédias, aos mais estranhos prontuários. Até em livros de bruxaria eu tive de vasculhar. Fiz das tripas coração, mas curei-o de tudo, não curei?
     A minha mãe, de olhos cabisbaixos, assentia em silêncio com a cabeça.
     — Mandei-o a Coimbra porque precisava da opinião, não de um especialista qualquer, mas do melhor especialista que havia no país. Infelizmente não foi possível pois ele morreu entretanto. Mas foi visto por uma sua discípula que apesar de ser gorda como uma anaconda…
     — Porque tem gases, coitada!… — arrisquei-me a acrescentar.
     — …é uma médica muito competente — continuou o doutor Duarte, deitando-me um olhar de estranheza. — E o facto de não lhe ter receitado nada, não quer dizer que o seu filho seja um caso perdido, santinha. É porque não vale a pena, que diabo. Basta que deixe de tomar aqueles excitantes todos que ela disse para deixar de tomar.
     — Mas ao menos — arriscou a minha mãe — podia ter-lhe receitado óleo de fígado de bacalhau, senhor doutor, que era para ver se ele me engordava e ganhava mais um bocado de cor, o desgraçado.
     — Pois que não seja por isso — acrescentou o médico, começando de imediato a rabiscar uma receita.
     É evidente que fiquei verde com a sugestão, mas muito pior ainda quando a minha mãe, a caminho da farmácia, me disse toda contente que o sacana do gajo me tinha receitado precisamente aquilo que eu mais abominava na vida: óleo de fígado de bacalhau.
     — Ou Fátima ou o óleo de fígado de bacalhau! — exclamei eu, indignado, quando ao almoço e com as costas quentes pela presença do meu pai, a minha mãe se preparava para me enfiar aquela mistela horrorosa pelas goelas abaixo. — As duas coisas ao mesmo tempo é que não pode ser!
     — Tem lógica! — observou, lacónico, o meu pai.
     — Mas eu prometi ir a Fátima — disse a minha mãe em jeito de desculpa. — Não posso voltar atrás.
     — Com licença! — vociferei com raiva, tirando-lhe resoluto das mãos a colher cheia daquela porcaria rançosa, olhando de soslaio para o meu pai e enfiando-a na pia de lavar a loiça.
     — Mas então vamos a Fátima! — exigiu a minha mãe, em desespero de causa.
     — Pois que seja a Fátima! — acrescentei eu, resignado. — Mas primeiro tenho de aprender a andar de triciclo.
     — Um ano ou dois devem chegar — adiantou o meu pai, esboçando um ligeiríssimo sorriso.
publicado por jdc às 10:14
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