Sábado, 18 de Agosto de 2007

O Assalto

 

 

— Isto é um assalto! Tudo para o chão!
Estamos em Braga, na agência do Banco Intercontinental, em Maximínios, quase à saída da cidade. São duas e cinquenta e sete da tarde da terça-feira passada, a três minutos portanto do encerramento ao público daquele balcão. Um daqueles dias de calor insuportável, tão pouco comum neste Verão de temperaturas pouco elevadas.
Lá dentro, para além de seis funcionários, sete clientes: quatro na fila do caixa, dois dos quais para levantarem cheques, um terceiro para cambiar travellers do Thomas Cook em dólares e o último para efectuar uma transferência à ordem do tribunal de Nelas. Mais ao lado, Horácio Pimenta, um industrial em apertos, aguardava que João Ramalho, o sub-gerente, lhe trouxesse um impresso para reforma de uma letra. A última e em último dia. E mais para o lado direito, quase no extremo do balcão, um casal, jovem ainda, era atendido por uma funcionária que lhe dava explicações sobre as taxas libor do crédito à habitação.
Tirando, portanto, a inoportuna entrada de três sujeitos encarapuçados, todos vestidos de negro, de armas em riste, com propósitos ameaçadores, e ainda um quarto elemento, ao volante de um potente BMW também preto, mas metalizado, presumivelmente roubado, estacionado à porta e a trabalhar, poder-se-ia dizer que o ambiente era tranquilo, normal mesmo, para uma agência bancária com aquelas dimensões e num dia como aquele.
— Ora esta! — barafustou, em voz alta, o Horácio Pimenta. — Vem um gajo, descansado, reformar uma letra e aparecem estes gabirus a assaltar a porcaria do banco. Sim senhor!... Como se já não me bastassem os problemas que tenho!...
— Caluda e tudo para o chão, JÁ! — berrou o primeiro dos assaltantes, que, pela voz, devia andar na casa dos trinta. — E não vale a pena tentarem tocar os alarmes, que já desligamos tudo. Câmaras incluídas.
O segundo meliante — o termo é forte, mas justifica-se plenamente —, contrariamente àquilo que possa imaginar-se, porque se vê nos filmes, não saltou o balcão para a parte de dentro. Era gordo demais para devaneios desse género. Entrou, normalmente, pelo espaço destinado a isso mesmo, para junto do caixa, a dona Rosário Martins. Estendeu-lhe um saco de viagem, preto, claro, já aberto, ordenando-lhe:
— Vá metendo!
— Metendo o quê?! — perguntou-lhe, estupefacta, a dona Rosário.
— Olha m’esta! — disse o assaltante, não acreditando no que estava a ouvir. — O dinheiro, menina! Os euros! Tudo o que tem aí!
— Ai tenha paciência, o dinheiro não posso! Sem autorização do gerente, pode tirar o cavalinho da chuva. E ainda por cima, o senhor Moreira não está, que foi visitar um cliente.
— Não sei se já reparou, minha senhora, que isto é um assalto. Um a-ssal-to! — começou a gesticular, furioso, o ladrão. — Antes que eu me comece a enervar e lhe enfie dois balázios nessa cabecinha pintada de loiro, faça-me o favor de me pôr aqui, neste saco, essa massa toda que aí tem.
— Olhe que não vale a pena berrar-me, que eu graças a Deus não sou surda — exclamava a dona Rosário, empertigando-se, enquanto que cruzava os braços e virava a cabeça para o outro lado, amuada. — Além do mais, pode tratar-me por menina, que eu sou solteira. E quanto ao dinheiro, estamos realmente num impasse: sem uma requisição assinada pelo senhor Moreira, tenha lá santa paciência, mas nada feito. Daqui, dinheiro só sai com justificativo. São regras e eu nisso sou muito escrupulosa.
— O que é que se passa aí, ó Farinha? — perguntou o terceiro dos assaltantes, de guarda à porta, a estranhar a demora, enquanto que o primeiro, ajoelhado, mantinha todos os clientes no chão, sob a ameaça da sua espingarda de canos serrados.
— Farinha?! É curioso — exclamou a dona Rosário, pensativa — eu tive um namorado, para aí há oito anos, que também se chamava Farinha. Alberto Farinha, é isso! Bom moço, mas um pouco gordo para o meu gosto. Foi até por isso que nos zangámos.
— Quero lá saber da merda do seu namorado para alguma coisa, menina! — berrava o Farinha, a ficar cada vez mais vermelho, de tão colérico que já estava. — Eu quero mas é o dinheiro que você tem aí nessa caixa, caraças!
— As únicas coisas que eu estou autorizada a dar são porta-chaves, esferográficas, bonés, elásticos e clipes. Quer clipes?
— Que clipes, porra! Nós viemos cá assaltar o banco! Percebeu, menina? Assaltar o banco! O que queremos é dinheiro...
— Ai dinheiro, como já disse, não posso dar-lhe. A menos que o senhor tenha conta neste balcão. Tem? É que se for assim e tiver provisão suficiente, basta-me a sua assinatura e poupamos o trabalho ao senhor Moreira, quando ele vier. Se vier, que ele às vezes diz «até já!» e só põe cá os pés no dia seguinte.
— É que já estou a ficar mesmo enervado — vociferava o Farinha, quase em transe. — Será que falo mandarim, menina? Passe-me essas notas todas, esses euros, santinha, se faz favor!
— Não se enerve que não vale a pena. A minha mãe sempre disse que pior que um homem enervado só um árbitro de futebol maricas. Quer um cafezinho, que eu trago-lho? Ou umas Águas das Pedras, talvez, não?
— Menina! Pela última vez: deixe-se de tretas e passe-me essas notas todas, que eu até já nem a estou a ver bem...
— O senhor é teimoso, não há dúvida! Já experimentou ir inscrever-se na GNR ou nos fuzileiros que estão a precisar de gente? E não adianta nada barafustar, que dinheiro não lhe dou, já disse! Não quer subscrever uns Títulos da Dívida Pública, ou umas acções do Millennium/BCP, que depois destes trambolhões todos da Bolsa estão pelas ruas da amargura? Ó senhor Ramalho, senhor Ramalho, dê-me aí um impresso para subscrição do BCP, se faz favor, que é para este senhor ver como eu não lhe estou a mentir.
— Porra, que com esta mulher não há paciência que resista! — exclamou o Farinha, pousando o braço no parapeito da zona de apoio ao caixa, encostando nele a cabeça, desanimado. — Definitivamente, eu desisto! E é que já nem quero dinheiro nenhum.
E, de braços caídos, impotente e quase em hipotermia psicológica, ainda lhe sobraram forças para dizer:
— Pronto menina, está bem!... Convenceu-me!... Dê-me lá então meia dúzia de clipes, que é para não dizerem que fomos daqui de mãos a abanar.
 
 
 

 

 

 

publicado por jdc às 10:22
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1 comentário:
De Félix a 18 de Agosto de 2007 às 19:49
Parabéns pelo blog! Parabéns pelo destaque! É merecido!

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