Segunda-feira, 13 de Agosto de 2007

Tudo está bem...

  

   A notícia correu célere, surpreendendo toda a gente pelo inesperado do seu conteúdo: o presidente da Câmara tentara suicidar-se. Fora encontrado, por um assessor, desfalecido no seu gabinete, com a cabeça tombada em cima de um amontoado de papéis que lhe recheava a secretária.
   Dissera quem viu, que ao lado da sua mão direita, dispostos sem qualquer ordem, estavam três isqueiros bic, deixando perceber que tenham sido esses, um vermelho forte, outro amarelo e um último verde-alface, os móbeis desta insensata acção que, a consumar-se, deixaria na mais profunda consternação todos quantos concederam àquele presidente a confiança maciça do seu voto. Um quarto isqueiro, desta vez azul-turquesa, permanecera ainda durante algum tempo preso na sua mão fechada, até à altura em que a equipa de paramédicos chegou para lhe prestar os primeiros socorros, procedendo à sua reanimação.
   A multidão, que cedo se começara a juntar aos magotes em frente aos Paços do Concelho, formando pequenos grupos de amigos, conhecidos, ou dividindo-se por classes profissionais e até por círculos corporativos, impacientava-se por mais notícias. Bastava-nos cirandar um pouco, como observadores imparciais, pelo meio daquela gente toda, para nos apercebermos de que as respostas que a curiosidade popular exigia eram, não tanto sobre o estado de saúde do infeliz – por que se o fosse não se aglomeraria em frente à Câmara, e sim junto ao Centro de Saúde para onde o desgraçado fora encaminhado às pressas –, mas sobre as verdadeiras, as autênticas razões que o levaram a cometer tal disparate.
   – Sim – dizia alguém entre a turba, para outro alguém que o escutava –, se uma pessoa se quer suicidar a sério, não vai usar a porcaria de quatro isqueiros da bic, não é verdade? Despeja mas é uma botija de gás propano por aquelas goelas abaixo.
   Bem no centro do largo do Município, um grupo numeroso onde pontificavam indefectíveis apoiantes do infortunado presidente, seguia com solene atenção as inflamadas alegações do doutor Adérito Vinagre, o mais conceituado advogado da praça, rejeitando completamente a hipótese, como vira ser avançada por algumas mentes mais fecundas, do presidente estar envolvido nalgum escândalo de permuta de terrenos, de favorecimento de qualquer afilhado na adjudicação desta ou daquela empreitada, de cambalachos em hastas públicas, ou mesmo na saída de verbas, pela porta do cavalo, destinadas a chorudas contratações de jogadores estrangeiros, como sucedera na última época com o clube da terra, que o levasse, em desespero de causa e na perspectiva de ter de enfrentar o braço sempre implacável da justiça, a tentar, de forma tão pouco consequente, pôr termo à sua atarefada existência.
   – E a mulher? – perguntou entretanto alguém seguramente movido por um espírito de curiosidade ainda mais exacerbado. – Sabem onde é que anda a mulher do presidente, por acaso?
   Ouviu-se então, dito por quem preferiu o sagrado escudo do anonimato – e isso eu respeito e continuarei sempre a respeitar –, que a dona Dodó fugira na noite anterior para o Rio de Janeiro com o treinador do clube de futebol, abandonando a casa, os filhos, as mordomias de primeira dama.
   Viu-se o alívio a aflorar subitamente à cara dos circunstantes. Desde que surgira a notícia, logo pela manhã, pelos longos e dolorosos momentos que se viveram, em que os desenvolvimentos eram escassos, a especulação desenfreada e os boletins clínicos inexistentes, afigurara-se a toda a gente ser o caso de contornos muito mais graves. Percebia-se finalmente agora que tudo não passara, felizmente, de uma sucessão de mal-entendidos.
   Pelos vistos, desabafava o doutor Vinagre respirando fundo, poderia continuar a pôr as mãos no fogo pelo seu querido amigo e presidente.
   Claramente mais tranquila, entretanto, a multidão começou a dispersar.

publicado por jdc às 12:20
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